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Editoria: Curiosidades e Conhecimento
Terça-feira, 8 fev 2005 - 10h12

Arqueólogo da NASA usa imagens de satélites para estudar civilização antiga

Onde hoje estão as florestas tropicais da Guatemala, houve em certa época uma grande civilização. O Maias construíram grandes cidades, templos suntuosos e pirâmides. No seu auge, ao redor do ano 900 DC, a população contava cerca de 200 pessoas por quilômetro quadrado nas áreas rurais e quase 800 nas áreas urbanas - comparável ao centro de uma cidade moderna como Los Angeles.

Esse vibrante "Período Clássico" da civilização Maia durou por cerca de seis séculos. Então, por alguma razão, ele ruiu.

A queda do Império Maia é um dos grandes mistérios do mundo antigo. Mas ela é mais do que uma curiosidade histórica. Nas imediações das ruínas Maias, na região de Petén, na Guatemala, próxima à fronteira com o México, a população está crescendo novamente e a floresta tropical está sendo cortada para dar lugar a áreas agrícolas.

"Aprendendo o que os Maias fizeram certo e o que eles fizeram errado, talvez nós possamos ajudar o povo local a encontrar formas sustentáveis de trabalhar a terra e parar com os excessos que destruíram os Maias," afirma Tom Sever, cientista do Centro Espacial Marshall, da NASA.

Sever, que é o único arqueólogo da NASA, vem utilizando satélites para examinar as ruínas Maias. Combinando esses dados com as descobertas da arqueologia tradicional, Sever e outros cientistas conseguiram montar o quebra-cabeças e entender muito do que aconteceu.

A partir do pólen preso em camadas antigas dos sedimentos de lagos, os cientistas descobriram que, há 1.200 anos atrás, pouco antes do colapso da civilização Maia, três tipos de pólen desapareceram quase completamente e foram substituídos por pólen de ervas daninhas. Em outras palavras, a floresta foi quase totalmente devastada na região.

Sem árvores, a erosão deve ter aumentado, drenando o solo fértil. A alteração na cobertura vegetal pode ter aumentado a temperatura da região em até seis graus, de acordo com simulações feitas em computador pelo climatologista Bob Oglesby, colega de Sever na NASA. Essas temperaturas mais altas secaram o solo, tornando-o ainda menos adequado para o plantio.

Temperaturas em elevação podem ter alterado os padrões de chuva, afirma Oglesby. Durante a estação seca no Petén, a chuva é escassa e a água subterrânea está muito profunda (mais de 150 metros) para ser alcançada por meio de cisternas. Morrer de sede foi um perigo real. Os Maias dependiam das águas da chuva, armazenadas em reservatórios, para sobreviver, de forma que a variação na ocorrência de chuvas pode ter tido terríveis conseqüências.

Alterações na formação de nuvens e na incidências de chuvas está ocorrendo hoje em regiões da América Central onde a floresta foi derrubada. Será que a história está se repetindo?

Utilizando técnicas clássicas de arqueologia, os pesquisadores descobriram que os ossos humanos das últimas décadas antes do colapso da civilização mostram sinais fortes de desnutrição.

"Arqueólogos costumam se perguntar se a queda do Império Maia foi causada pela seca, pela guerra ou por doença, ou uma série de outras possibilidades, como instabilidade política," diz Sever. "Agora nós achamos que todos esses fatores tiveram o seu papel, mas que eles eram apenas sintomas. A verdadeira causa foi uma crônica falta de comida e água, devido a uma combinação de seca natural e devastação florestal feita pelo homem."

Hoje, a floresta tropical está novamente tombando pela ação dos machados. Cerca de metade da floresta original foi destruída nos últimos 40 anos, cortada por agricultores praticando a agricultura do "cortar e queimar": uma parte da floresta é cortada e queimada para dar lugar à plantação. É a matéria orgânica que dá fertilidade ao solo, de forma que, de 3 a 5 anos depois, o solo se exaure, forçando o agricultor a seguir adiante e cortar outra parte da floresta. Esse ciclo se repete indefinidamente... ou até a floresta acabar. Em 2020, a continuar o ritmo atual de devastação, apenas entre 2 e 16 por cento da floresta original continuará existindo.

Parece que os povos modernos estão repetindo alguns dos erros dos Maias. Mas Sever acha que o desastre pode ser evitado se os pesquisadores puderem descobrir o que os Maias fizeram corretamente. Como eles sobreviveram por tantos séculos? Uma importante dica vem do espaço.

Sever e seu colega Dan Irwin estiveram investigando fotos de satélites e, nelas, Sever encontrou sinais de canais de irrigação e drenagem em áreas pantanosas (chamadas "bajos" pela população local) próximas às ruínas Maias. Os moradores atuais fazem pouco uso dessas áreas baixas, e os arqueólogos há muito consideram que os Maias também não as utilizaram. Durante a estação chuvosa, de Junho a Dezembro, os bajos são muito lamacentos e, na estação seca, eles estão ressequidos. Nenhuma das duas condições é adequada ao plantio.


Imagem Ikonos mostra traços que podem ter sido canais de irrigação dos Maias

Sever suspeita que esses canais eram parte de um sistema projetado pelos Maias para controlar a água dos bajos de tal forma que eles podiam cultivar essas áreas. Os bajos formam 40% da paisagem, transformando essa vasta área em área agrícola pode ter dado aos Maias uma fonte de alimentos muito maior e mais estável. Eles poderiam cultivar as terras altas durante a estação das chuvas e os bajos durante a estação da seca. E eles podem ter cultivado os bajos ano após ano, ao contrário de derrubar e queimar novas porções da floresta.

Será que os agricultores atuais da região do Petén poderiam aprender essa lição dos Maias e lançar suas sementes nos bajos?

É uma idéia intrigante. Sever e seus colegas estão explorando esta possibilidade com o Ministério da Agricultura da Guatemala. Eles estão trabalhando com Pat Culbert da Universidade do Arizona e Vilma Fialko do Instituto de História e Antropologia da Guatemala para identificar áreas nos bajos que sejam adequadas ao plantio. E eles estão considerando a idéia de fazerem testes com o plantio de milho nessas áreas, com canais de irrigação e drenagem inspirados pelos Maias.






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