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Editoria: Espaço - Tecnologias
Segunda-feira, 14 mai 2007 - 09h25

Bactérias e organismos espaciais preocupam a NASA

Imagine a seguinte situação: você é um dos sete astronautas que estão retornando para casa após uma missão de três anos a Marte. Na metade do caminho, sua espaçonave passa a sofrer intermitentes paradas elétricas. Para sanar o problema você remove o painel de serviços para checar a fiação.

O que você vê é inacreditável. Sujeiras bóiando em uma poça flutuante, maior que um limão. Fios e conectores completamente recobertos por grandes áreas de mofo.

Essa não é uma cena tirada de um filme de ficção científica, mas aconteceu realmente a bordo da estação espacial russa MIR no ano de 1986. "Ela era tão limpa quanto é hoje a Estação Espacial Internacional", recorda o cientista Mark Ott, especialista em saúde espacial do Centro Espacial Johnson, da Nasa. Os cosmonautas a bordo da MIR, a exemplo dos astronautas americanos e de outras nações que freqüentam a ISS atualmente, também seguiam as mesmas orientações de limpeza das superfícies, de modo a prevenir o crescimento de bactérias e fungos que pudessem colocar em risco a saúde humana no espaço.

O motivo é óbvio: onde a aventura levar o Homem, os microorganismos o seguirão. E graças ao próprio Homem e se as condições permitirem, voltarão juntos para casa.

Na década de 1990, um programa em conjunto entre a NASA e a agência espacial russa iniciou um estudo sobre as micro bactérias a bordo da MIR. Para planejamento de missões de longa duração, ambos os países estavam interessados em aprender como os diversos tipos de organismos poderiam se desenvolver dentro de espaçonaves ocupadas por longos períodos de tempo, onde a água e o ar precisavam ser reciclados. O interesse era grande, já que durante mais de 15 anos em órbita ao redor da Terra, a MIR sofreu diversas quedas de energia, fazendo a temperatura e a umidade cair abaixo dos níveis normais, fazendo os níveis de circulação permanecerem inadequados por longos períodos.


O espanto
Em 1998, astronautas norte-americanos participando das missões 6 e 7 da NASA visitaram a estação MIR, coletaram amostras do ar ambiente na sala de jantar, sala de controle, quartos de dormir, banheiros, sala de ginástica e próximo a equipamentos científicos.

A surpresa maior ocorreu quando os astronautas abriram um painel raramente acessado do módulo Kvant 2. Ali, flutuando, encontraram uma enorme bolha de água, que de acordo com os astronautas, era do tamanho de uma cesta de basquete!

Pior: essa massa de água foi somente uma, entre diversas outras, encontradas atrás dos painéis. Mais tarde os cientistas concluíram que a água se condensou ali a partir da umidade que se acumulou durante muito tempo, formando gotículas de água que se juntaram no ambiente de micro gravidade. O padrão das correntes de ar dentro da MIR levava a mistura úmida diretamente para dentro dos painéis, de onde não podiam escapar ou evaporar.

Para completar, água não era limpa. Duas amostras eram de cor marrom e outra era quase branca. Por trás dos painéis a temperatura era bem quente, da ordem de 28 graus, o suficiente para fazer crescer todo tipo de seres desagradáveis. De fato, amostras extraídas das gotas através de seringas e levadas de volta à Terra para análises, continham diversas espécies de bactérias, fungos, protozoários, espiroquetas e ácaros.

Além disso, colônias de microorganismos também foram encontradas crescendo ao redor das vedações de borrachas das janelas, dos trajes espaciais, cabos e tubos isolantes dos condutores e também dentro dos dispositivos de comunicação.

Sem levar em conta que os microorganismos podem ser um sério problema para a saúde humana no ambiente espacial, eles também podem atacar a estrutura da nave. Segundo Andrew Steele, do Centro Espacial Marshall, os microorganismos podem danificar o aço-carbono e até mesmo o aço-inoxidável. "Nas juntas onde dois materiais diferentes se encontram, eles podem criar correntes galvânicas, causando corrosão dos materiais. Além disso, também produzem ácidos que atacam o metal, vidros e despedaçam borrachas".

Em outras palavras, são ruins para saúde humana e da espaçonave.


LAb-on-a-Chip
Por essas razões é que a NASA está desenvolvendo o LOCAD-PTS (Lab-On-a-Chip ou laboratório em um chip), um dispositivo capaz de diagnosticar a presença de bactérias e fungos nas superfícies das espaçonaves em fração de minutos, muito mais rapidamente que os métodos padrões de culturas, que podem levar diversos dias e requerem que as análises retornem à Terra.

"O LOCAD-PTS é um excelente exemplo do tipo de equipamento que os astronautas vão precisar em um habitat lunar ou em uma longa viagem a Marte", explica Steele. "Nestas missões as tripulações deverão fazer avaliações de forma autônoma, já que não poderão enviar amostras à Terra. Apesar das falhas elétricas e mecânicas da MIR não terem sido planejadas para biodegradação, em uma viagem à Marte elas seriam mais trágicas ainda", completa o pesquisador.

Atualmente o LOCAD-PTS já é capaz de detectar 130 tipos de organismos diferentes, mas o objetivo maior do desenvolvimento do equipamento criar um instrumento capaz de identificar os microorganismos individualmente, apontando quais tipos estão associados à biodegradação de painéis, às doenças humanas e até mesmo detectar microorganismos em Marte.

Fotos: No topo, ácaro encontrado em uma das amostras coletadas dentro da estação espacial MIR e é literalmente um ser vindo do espaço. Na segunda foto, fungos crecem próximo a um dos painéis da Estação Espacial Internacional, mostrando que a contaminação pro micro organismos não era um problema exclusivo da MIR. Acima, o equipamento Lab-on-a-chip, em testes.






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