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Degradação do céu noturno é sustentabilidade??

Notícia enviada em 12/10/2011
por Rodolfo Bonafim - São Paulo/SP
Recordo-me de quando iniciei minhas observações astronômicas no quintal do meu sobrado em Santos, litoral paulista. Era o ano de 1984. Por algum tipo de relativa sorte, separando minha casa da dos vizinhos, havia paredões (muros altos) e a iluminação pública era parcialmente barrada pois realizava as observações tendo a própria parte de trás da casa como escudo. É claro que isso não impedia de forma alguma, a formação de um halo de iluminação cinza-azulado no céu visto a olho nu (sem auxílio de instrumentos ópticos, tais como lunetas ou telescópios) ou cinza-esverdeado visto nas fotos astronômicas...

Mas, para um ",sítio", de observação astronômica em plena cidade como Santos, em cujo horizonte nas direções leste e nordeste, a iluminação das vias do maior porto da América Latina, perfaz uma altura de aproximadamente 30º de luz vermelho-alaranjada, até que estava razoável, pois com a minha primeira luneta ganha de presente pela minha avó materna, consegui observar faixas da atmosfera de Júpiter, um dos anéis de Saturno, vários detalhes da superfície lunar que davam a impressão de se estar sobrevooando o satélite natural de nosso planeta e ... etc. Aglomerados estelares abertos como o das Híades e das Plêiades e tantos outros na rica parte da direção do centro da Via-láctea e objetos difusos como alguns aglomerados globulares e nebulosas como a de Órion, Lagoa e Ferradura, completavam minhas observações e contemplações do céu da noite.

Quando passei a observar a partir de sítios mais afastados da “voracidade iluminista” das grandes cidades como nos Observatórios Municipais de Itapira (já desativado), de Amparo e do Capricórnio em Campinas, no interior do estado paulista, meu elenco de astros foi multiplicado bem como a qualidade de visão e precisão, imprescindíveis a trabalhos de pesquisa séria. Isso iniciou-se a partir de 1988. Mas, infelizmente hoje, com o avanço das áreas urbanos para as áreas suburbanas e rurais, até o famoso Observatório do Capricórnio, situado no alto da Serra das Cabras no Distrito de Joaqim Egídio de Campinas, que possuía um céu límpido e escuro, já não é mais o mesmo. O que aconteceu com os Observatórios da Universidade de São Paulo (USP), na Água Funda (Parque do Estado) na capital e no astrométrico em Valinhos (também da USP)na região de Campinas também, de passarem de centros de pesquisa a museus de difusão educacional-científica, vai acontecer com o Capricórnio.

Voltando aos anos 1980, nessa época, já se falava dos malefícios da poluição luminosa, “praga” que já assolava a tranqüilidade de astrônomos entusiastas e profissionais.

Via de regra, mesas de debates sobre o tema e conferências aos poucos se alastravam pelo mundo, tendo como carro-chefe os Estados Unidos, país que concentra muitos e muitos centros de pesquisas amadoras e profissionais em Astronomia. Em um Congresso realizado em Paris em junho de 1992, a UNESCO destacou os grandes prejuízos causados à Astronomia pelo excesso de iluminação artificial, e declarou que as noites estreladas faziam parte do patrimônio do mundo e que deveriam ser salvaguardadas e a poluição luminosa é a causa desse dano, que também resulta no desperdício de 30% da energia utilizada para iluminar as cidades (Dados fornecidos pela Associação Dark Sky).

Citei há pouco, o brilho vermelho-alaranjado das luzes do cais santista. Pois é, são luminárias de vapor de sódio, que causam estas nuances de cor. Em estradas e vias dos portos têm função estratégica, ao criar uma situação de razoável desempenho visual em noites e em situações de névoa e neblina. Até meados de 2003, porém, a iluminação pública em geral era constituída por luminárias de vapor de mercúrio, com bom desempenho. Já em 2004, iniciou-se um processo de troca intensiva de luminárias de mercúrio para sódio, sob alegação governamental de que esta última seria mais econômica. Quem lembra ou ouviu falar dos apagões e do racionamento de energia elétrica em 2001, que foi o “motor” propulsor desta troca?

Bem, sob esta óptica, hoje temos maior poluição luminosa por parte das lâmpadas de sódio e mais – percebe-se o enorme desperdício de luz causado por luminárias que lançam grande parte de sua luz para cima, paralelamente ao solo ou para além da área útil. São os postes da iluminação das ruas, os das praças em forma de globo esférico, os refletores das quadras de esportes, estacionamentos, canteiros de obras, clubes, aeroportos, etc. Se cada dispositivo de iluminação fosse criado com o cuidado de aproveitar toda a luz gerada, dirigindo-a para baixo, os níveis de poluição luminosa cairiam mais de 80 por cento.

E não fica por aí os danos causados à visão do céu noturno. Já foi comprovado que o excesso de luz prejudica a orientação de aves migratórios e também perturba o período de desova das tartarugas marinhas em nossas praias. Em Bertioga, cidade que já foi distrito de Santos, isso já foi constatado, infelizmente.

Mas, acredito que a comunidade astronômica não deveria somente pensar em tentar reduzir esses excessos junto à técnicos e engenheiros eletricistas especialistas em luminotécnica com fins de haver melhores projetos de iluminação que não cometam excessos, nem tampouco desperdicem energia elétrica. Por que não juntar-se também aos movimentos de ativismo em prol do meio ambiente? Sabemos que o avanço das áreas urbanas das cidades, formando conglomerados urbanos que compõem as megalópoles (por exemplo, a cidade São Paulo, que tende a expandir-se a si mesma e a Grande São Paulo, de modo a fundir-se com as regiões metropolitanas de Campinas, Sorocaba e São José dos Campos e possivelmente, mesmo com a barreira da Serra do Mar, à Baixada Santista no litoral – imagine-se se isto for possível, a degradação de parques e santuários ecológicos da Serra), estão destruindo as áreas verdes para construção de novos loteamentos, novas moradias, empresas, etc. Só por isso já não se sustenta a defesa conjunta do meio ambiente? Pois quanto mais desmatamentos, mais geração de iluminação e conseqüentes excessos de luz e desperdícios de energia. Por que então, não levantar a bandeira da conscientização ambiental para além da preservação da qualidade do céu noturno, seja para simples, porém honrosa contemplação e/ou pesquisa científica, mas também com a finalidade de preservação do nosso meio ambiente?

Não sou contra o progresso, claro, haja vista minha formação básica em engenharia e ciências, mas por que não incluir o tema poluição luminosa na pauta do Desenvolvimento Sustentável? Finalmente (embora este tema seja assunto que escreveria-se teses e livros), por ora, por que não agregar o tema à poluição química atmosférica por efluentes gasosos, (que além de alterarem a composição química das nuvens, podendo trazer chuvas torrenciais e danosas ao meio ambiente urbano, aquecem a atmosfera e no inverno, com a secura do ar, propiciam o surgimento e o agravamento de doenças respiratórias e alérgicas), afinal, será que é única e exclusivamente a poluição luminosa a grande vilã da qualidade do céu? Será que o excesso de lançamento de material particulado à atmosfera pelas indústrias petroquímicas e o excesso de queimadas no nosso interior brasileiro com o agravamento da seca, “subsidiada” pelas mudanças climáticas, não causam deterioração gradual da visão dos astros, especialmente aqueles difusos como as nebulosas, galáxias, cometas e aglomerados globulares???

Saliento, que nos meus mais de vinte anos de observação astronômica, visual e fotográfica, poderia até escrever não só relatos como esse, mas até crônicas, pois acreditem amigos, tenho muitas históricas para contar (e algumas até meio bizarras), pois tenho sido uma espécie de testemunha ocular da degradação do céu noturno. Talvez, minha motivação de estudar o clima, tenha partido da necessidade de monitorar as condições meteorológicas, pois é delas que dependem as observações celestes, as quais exigem condições precisas, melindrosas e críticas (como em algumas vezes , só para citar um exemplo entre muitos outros), estava tomando astrofotografias de longa exposição e mesmo com céu sem nuvens, de repente o clarão de um relâmpago repentino, estragava todo um trabalho fotográfico??

No entanto, antes de atacarmos o problema da poluição luminosa é mais que necessário e urgente, acordar o quanto antes e não ter uma visão míope do tema, pois seria razoável, apenas convocar políticos e técnicos luminotécnicos? Não poderíamos agregar técnicos de saneamento, ecologia, para o debate e tomada de soluções???

Está na hora (e talvez já tenha até passado da hora) de pensarmos o futuro como sendo apenas todo ele tomado mais e mais por parafernálias eletrônicas e computacionais, tais como no desenho dos Jetsons dos geniais Hanna e Barbera com excessos de comodismos e não se preocupando com questões muito mais relevantes como o tema água, por exemplo,o líquido precioso, tentando assim, planejar as cidades, para serem ambientes menos inóspitos como as famosas “Selvas de Pedra” de hoje (se olharmos Santos por satélite, observaremos uma cidade praticamente toda “cimentada” ou impermeabilizada)!! Lembremos que os Jetsons foram criados nos anos 1960, quando o mundo só pensava em consumir, pois não havia sequer acordado no meia da noite, para ter um mero insight de consciência ambiental!!

Na imagem anexa, uma vista espacial da Terra à noite!!!

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