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Vento noroeste, calor e ar seco em Santos!!!

Notícia enviada em 29/05/2012
por Rodolfo Bonafim - São Paulo/SP
Prossegue o veranico em toda a região de Santos. Uma intensa e extensa massa de ar seco de alta pressão domina a região sudeste. Não havendo frontogênese (formação de sistemas frontais) e com a descida das correntes de ventos continentais secos do quadrante noroeeste pelo declive abrupto da Serra do Mar, por efeito da compressão adiabática (sem perdas de calor), o calor impera nesta terça-feira, dia 29 de Maio em pleno final de outono!!!

A temperatura superficial marinha ligeiramente mais alta do que a normal climatológia na costa paulista, também auxilia a intensificar o veranico que começou fraco da metade para o final da semana passada.

Isto resulta no que confere a Santos mais uma vez a categoria de uma das cidades mais quentes do estado paulista!

A temperatura atual na Vila Belmiro em Santos (14:40) é de 32,6ºC e ar seco (umidade relativa em 38%) e pressão de 1013 milibares. O céu está praticamente sem nuvens e os ventos sopram fracos (10Km/h) do quadrante noroeste.

Aliás, o vento noroeste é comum e famoso em Santos e mesmo assim muitas pessoas da região não o toleram devido a sua secura. Pessoas principalmente alérgicas enfrentam dificuldades nessa situação climática. Lentes de contato precisam de boa umidificação nos olhos para sua flutuabilidade e transparência da visão e com ar seco, usuários desse tipo de lentes corretoras sofrem ressecamento e ardência nos olhos, tornando ainda a visão turva com baixa acuidade visual. O vento noroeste começou a soprar mais ostensivamente nesta madrugada, aumentando em pouco mais de 1ºC a temperatura por volta da 1 hora. Geralmente, a temperatura desce com o cair da noite, mas o microclima santista tem também essa bizarra faceta!!!

Aliás, na cidade do Rio de Janeiro, de clima semelhante ao de Santos, o noroeste também é comum e conhecido por vezes com a denominação ",terral",, ou vento continental.

Abaixo trancrevo uma prosa de Vinícius de Moraes enfocando os dramas de um dia de noroeste no Rio de Janeiro.

Curtam!!!

O vento noroeste

Ou muito me engano (e nesse caso corrija-me o Gabinete de Meteorologia) ou foi mesmo o Vento Noroeste que se pôs desde dez horas de anteontem a soprar sobre a cidade, secando o coração das gentes. O vento desceu subitamente do céu da madrugada, onde brilhava, numa lucidez de entreloucura, grande como uma lágrima da noite, a desvairada estrela da manhã. Primeiro numa rajada fria, que trazia na epiderme farfalhante um pouco do éter das altas regiões de onde chegava. E logo tornou-se morno, depois aqueceu. E partiu à solta, crestando a face lisa da aurora, fazendo crepitar as folhas das árvores, evaporando o mar que inaugurou de verde o dia nascente. A mim secou-me os olhos, a boca e a alma perseguida de insônia, e me tornou áspero o lençol, e me trouxe lembranças secas de vida. Assisti ao dia nascer como se visse um diamante cortar vidro e ficasse inelutavelmente a respirar a poeira implacável do carvão remanescente.

Depois dormi e sonhei. Mas meus sonhos tinham também uma secura de cal. Vi se estorcer em chamas o antigo cadáver de uma moça que morreu tísica e se chamava Alice. Vi homens se arrastando atrás de mulheres sobre um chão de giletes. Vi troncos musculares de fícus arfando em dispnéias vegetais. Vi se queimarem atmosferas enormes em clarões de cloretila. Depois acordei com a boca seca e uma sede de chupar limão verde.

De saída para o Centro, pude sentir o mal que o Noroeste, esse Leviatã dos ventos, estava fazendo à cidade. Na esquina de minha casa tinha desaparecido uma criança, que a mãe buscava em gestos de Guernica. No ônibus (pegara um marcado ",expresso",) várias pessoas tinham-se esquecido que esses carros são diretos e quiseram saltar em Copacabana, mas o chofer não deixou porque é proibido. A palavra ",proibido", ganhou uma tal secura, ao Vento Noroeste, que por um instante eu tive a visão do homem carioca afogado em cinzas. Não podia saltar onde queria, mesmo pagando. A companhia de ônibus não deixava. Precisaria pegar outro ônibus, ou então um lotação, para voltar. Nesse meio tempo já tinham saído várias discussões e na avenida Atlântica houvera um desastre com dois ônibus vermelhos da linha Ipanema: um deles chegara até a beira do passeio, quase a cair na areia, e tinha uma cara sedenta, como se tivesse querido se afogar. Na Glória, a carcaça de outro ônibus que ardera amontoava-se no asfalto. Aquilo lembrou-me, em grande, um esqueleto incinerado que vi no cinema, saindo de um forno, num dos campos de concentração nazista. De vinda para a redação, vi dois homens brigando corpo a corpo. Agrediam-se como cães danados e depois um pegou uma pedra para arrebentar a cabeça do outro, e só por um acaso não acertou.

E agora, escrevendo esta crônica que é a seca expressão da verdade, eu vejo que o Noroeste está querendo secar até a tempestade que se anuncia na tarde erma. Não, que o Vento Noroeste não seque a tormenta que há de desafogar a cidade. Vinde, trovões mensageiros, rasgai o céu, relâmpagos! Que as águas de um novo dilúvio desabem sobre a cidade angustiada e encharquem a terra de lama e as árvores de seiva. Que desçam os raios e sangrem o flanco flácido dos morros e que se rejuvenesça o coração dos homens. Que o ar se rompa em rajadas frescas e se repousem os cabelos das mulheres, frementes de eletricidade.

Que deixem de ranger os papéis da burocracia, sacados pelo Vento Noroeste. Que pare, que pare imediatamente o sopro desta bisnaga de ar quente a soprar sobre a dentina dolorida da cidade. Que venha o Azul, o Azul, o Azul, o Azul!

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