Sábado, 01 set 2007 - 16h49

Há 125 anos, observações astronômicas eram luxo para o país

Um episódio ocorrido há 125 anos provocou um dos primeiros debates sobre o investimento em ciência no Brasil. De comum acordo com dom Pedro II, o ministro da Marinha, Bento de Paula Souza, pediu ao Parlamento brasileiro verba de 30 contos para bancar três expedições científicas com o objetivo de observar de pontos favoráveis a passagem de Vênus sobre o disco solar. As observações, em 6 de dezembro de 1882, ajudariam a determinar a distância entre a Terra e o Sol.

Observatório de Punta Arenas, no Chile.

Uma das expedições foi a Olinda, Pernambuco. Mas as principais se concentraram na Ilha de São Thomás, nas Antilhas, e em Punta Arenas, no sul do Chile. “Esses dois lugares formaram a base de um imenso triângulo, e um dos vértices tocava o planeta Vênus”, explica Marcomede Rangel, físico do Observatório Nacional, instituição que coordenou as expedições, na época com o nome de Imperial Observatório do Rio de Janeiro. “Por semelhança de triângulo se chegava à distância da Terra a Vênus e de Vênus ao Sol.” Vários outros países enviaram equipes para fazer observações em diversos pontos do globo.

O pedido do imperador e do ministro suscitou protestos na Câmara e no Senado e muitas charges na imprensa, em especial na Revista Ilustrada, desenhada e editada por Angelo Agostini. “Foi um dos mais vivos debates sobre o uso da ciência básica”, afirma Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, pesquisador do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast) e estudioso do assunto.

No Senado, Silveira da Mota, contrário à concessão da verba, reclamava: “O povo quer outras coisas, não quer observações astronômicas (...) o povo quer estradas de ferro, quer muito café, muito fumo, muita liberdade individual, governos muito econômicos e muito moralizados (...) o povo quer tudo isto, mas não se importa com saber o que vai pelas estrelas... isto é luxo”. Na Câmara, o deputado Ferreira Viana fazia coro ao senador.

Os políticos não entendiam quais os benefícios que as expedições trariam para a população. Resultado: o Parlamento não concedeu os 30 contos. Mas, para atender o imperador, o conselheiro Leão Velloso conseguiu o dinheiro com dois ricos fazendeiros e as expedições foram realizadas.

A polêmica sobre Vênus foi um fato isolado para a época, de acordo com a antropóloga da Universidade de São Paulo, Lilia Moritz Schwarcz, autora do livro As barbas do imperador (Companhia das Letras, 1998).

A atividade científica ainda era incipiente em 1882 e o maior interessado em praticá-la, mesmo como amador, era justamente dom Pedro II.

Dom Pedro exercia o mecenato nas artes, letras e ciência. Além de desejar dar autonomia cultural à elite local, o imperador visava também se distinguir de outros soberanos, incluindo os do passado. “Na época, para serem considerados ilustrados reis e rainhas tinham de ser cientistas”, diz Lilia. Outro fator que contribuiu para evitar polêmicas na ciência daquele tempo era o fato de dom Pedro praticar a ciência de modo privado – era astrônomo amador e tinha um observatório no Palácio de São Cristóvão. Havia também o Museu do Imperador, onde ficavam as múmias que ele ganhou no Egito, material etnográfico e a coleção de gemas de Leopoldina. “Lá só entravam cientistas convidados por ele.”

Fonte: Revista Pesquisa Fapesp - Texto Neldson Marcolin - Edição Impressa

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