Sábado, 24 nov 2007 - 07h50

Pálido Ponto Azul e as lições da Voyager, 30 anos depois

Neste ano de 2007 a Nasa comemora uma das mais longas missões de toda a história da exploração espacial, o programa Voyager. Uma missão que deveria durar cinco anos e já completa 30. Os sinais das gêmeas Voyager 1 e Voyager 2 continuam sendo captados, mesmo com as naves se aproximando do espaço interestelar.

Em 15 de agosto de 2006, a Voyager 1 atingiu a singela distância de 15 bilhões de quilômetros do Sol e para captar seus tênues sinais, a agência americana utiliza antenas de mais de 70 metros de diâmetro, quase do tamanho de um campo de futebol.

As duas naves não são apenas um símbolo da exploração do espaço. Tornaram-se também um ícone da cultura pop, inspirando novelas, jogos de computador, músicas, videoclipes e dezenas de filmes entre os anos 1980 e 1990. A maior parte desses trabalhos de ficção mostrava o que poderia acontecer se uma raça alienígena conseguisse localizar a Terra utilizando os dados dos famosos "discos de ouro", levados pelas espaçonaves.

Os discos continham uma seleção de sons e imagens e retratavam a Terra através de pessoas jovens e velhas, homens e mulheres entre outras espécies, além de incluir informações sobre os continentes e a localização da Terra no espaço.

No início das explorações espaciais da Nasa, as naves levavam placas com informações sobre nosso planeta, que poderiam ser úteis no caso de serem interceptadas por uma raça alienígena. Isso inspirou o diretor do projeto Voyager, John Casani, a contratar o astrônomo e autor Carl Seagan, com o objetivo de dirigir o comitê de mensagens a ser embarcado na missão.

Em seu livro "Murmúrios da Terra: a viagem interestelar", Carl Seagan descreve como o comitê criou o disco e como foram escolhidas as gravações. Foi o físico Frank Drake quem sugeriu a idéia de gravar sons de um lado e imagens do lado oposto. O grupo teve menos de seis semanas para produzir o trabalho que deveria representar toda a população da Terra e descrever o planeta de um modo geral, e que acima de tudo, também pudesse ser compreendido por uma raça extraterrestre.

Apesar da chance das mensagens virem a ser encontradas por seres de outro mundo ser extremamente pequena, o disco de ouro das Voyagers se tornou um ícone. "É a clássica mensagem da garrafa. A probabilidade de ser encontrada é muito baixa, mas a recompensa não tem preço", diz Ann Druyan, autora e produtora científica. Na época, Ann era diretora de criação do projeto e mais tarde se casou com Carl Seagan.

Ed Stone, cientista-chefe do projeto e diretor do JPL, Laboratório de Propulsão a Jato, da Nasa, explica que mesmo sendo pequenas as chances de ser encontrada, a gravação é uma importante mensagem para todos nós.

"É um apelo à unificação", diz Stone. "Não é uma mensagem qualquer. É uma mensagem da Terra. Ela contém cumprimentos em muitas línguas, músicas de diversas culturas e imagens que retratam nosso planeta, nossa casa. É nossa tentativa de dizer o que é a Terra e o que pensamos de nós mesmos".

Druyan também explica que a idéia de mesclar música, arte e ciência a fez devotar muita energia ao projeto. "A gravação representava um ideal e mostrava que ciência, arte e tecnologia podiam caminhar juntas". É uma das poucas grandes histórias que nós temos sobre a raça humana. Foi a forma que encontramos de celebrar a glória de vivermos nesse "Pálido Ponto Azul".

"Essa foi a mais romântica e maravilhosa missão jamais realizada pela Nasa. Havia de tudo um pouco nas gravações, um beijo, uma mãe dizendo "Olá" pela primeira vez ao filho recém nascido. Tudo é música e foi feito durante a Guerra Fria. Todos sabiam que haviam mais de 50 mil armas nucleares que poderiam ser disparadas a qualquer momento e havia muita dúvida sobe o futuro. Foi um trabalho muito positivo, um jeito de representar a Terra e dar um passo de qualidade em direção ao futuro. Foi irresistível"

Nick, filho de Carl Seagan, tinha seis anos em 1977, quando as gravações foram feitas. Ele participa de uma das faixas onde cumprimenta um possível ouvinte: "Olá das crianças do planeta Terra". Anos mais tarde, Nick confessou que não tinha a menor idéia da magnitude do que estava fazendo. "Meus pais me colocaram na frente de um microfone e disseram: O que você gostaria de dizer aos extraterrestres? Diga olá para eles!".

Hoje em dia, 30 anos mais tarde, as Voyagers continuam sua jornada rumo ao desconhecido. Mesmo sendo infinitamente pequenas as chances de serem interceptadas por outra civilização, as mensagens e sua enorme distância deixam uma importante lição, no sentido de refletirmos sobre a necessidade de cuidarmos melhor da nossa própria casa, que a 15 bilhões de quilômetros, não passa de um distante "Pálido Ponto Azul".

No topo, do lado direito, detalhe de um dos "Discos de Ouro" levados junto às Voyagers 1 e 2. Do lado esquerdo vemos a "capa" do disco, que ensina como utilizá-los.
Na seqüência, uma das mais belas fotos da Terra, chamada de "Pálido Ponto Azul". A imagem, feita pela Voyager 1 no dia 14 de fevereiro de 1990, mostra nosso diminuto planeta a uma distância de 6.4 bilhões de quilômetros de distância. "Pálido Ponto Azul" foi feita a pedido do próprio Carl Seagan, para justamente mostrar-nos quão ínfimo é o nosso planeta, comparado à nossa arrogância. Acima, o astrônomo e sua esposa, Ann Druyan. Seagan morreu em 20 de dezembro de 1996, aos 62 anos.

Ouça alguns sons do disco de ouro

  • "Olá das Crianças do Planeta Terra"
  • Um beijo e uma mãe dizendo "olá" ao filho recém-nascido.
  • Frase em Mandarim: "Esperamos que estejam bem. Pensamos muito em vocês, quando tiverem um tempo, faça-nos uma visita!"
  • Sons de grilos e sapos
  • Vento, chuva e ondas

    Agradecimentos: Alessando Silva Matos, que nos corrigiu em diversos pontos da matéria.

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